segunda-feira, 6 de novembro de 2017

DISCURSO: FIGURAS DE PENSAMENTO PARA MOVER A SENSIBILIDADE


O DISCURSO, como já vimos, necessita de alguns artifícios para que as ideias nele apresentadas se tornem realçadas, suavizadas e os sentimentos concretizados. Após tratarmos das duas primeiras Figuras ou Artifícios, os que visam mover a inteligência e a vontade, veremos neste tópico as Figuras que visam mover a sensibilidade ou as Figuras para Recrear.

Esta classe de Figuras comporta apenas duas, a correção e a anamnese.

1. CORREÇÃO: é a figura em que se escolhe criteriosamente as palavras tornando assim o discurso bem articulado, apropriado a fornecer uma comunicação mais eficaz com o auditório. 

2. ANAMNESE: é a figura em que finge lembrar-se de uma coisa, de um fato, que ia se esquecendo.


A BASE DAS FIGURAS

A COMPARAÇÃO é a base de todas as verdadeiras figuras, sempre constando de dois termos onde o segundo esclarece o primeiro. O primeiro termo muitas vezes vem oculto ainda que presente ao espírito, enquanto o segundo sempre expresso. A aproximação de duas ideias sempre conduz a clareza maior.

Dois termos unidos podem vir expressos por simples aposição ou pelos seguintes conectivos de forma positiva: como, diferente de, igual a, superior a, inferior a, mais do que, menos do que, parecido com, etc., e os seguintes de forma negativa: não como, não diferente de, não igual a, não superior a, não inferior a, não mais do que, não menos do que, nada parecido com, etc.

Notemos que o próprio nome figura significa aparência, simulação de uma realidade - do verbo latino fingere = modelar, formar, copiar -, o que, portanto, deve fazê-la corresponder a uma realidade. Aparência e realidade são, pois, os dois termos da comparação que sempre existem em qualquer figura.

Paulo Barbosa

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

DISCURSO: FIGURAS DE PENSAMENTO PARA MOVER OU DIRIGIDAS À VONTADE

O discurso de um orador tem por objetivos primordiais atingir as faculdades humanas - a inteligência, a vontade e a sensibilidade -, mas para que isso, de fato, ocorra, as suas palavras e frases devem estar revestidas de roupagens adequadas, de recursos que as tornem adornadas, provocativas, claras e eficientes. Tais recursos são as Figuras

As Figuras de Pensamento, como já visto anteriormente, se subdividem em 3 espécies, as dirigidas à inteligência - Figuras para provar -, as dirigidas à vontade - Figuras para mover - e as dirigidas à sensibilidade - Figuras para recrear. Já visto em anterior Tópico a primeira espécie, veremos agora a segunda.

Figuras para mover são as sete seguintes:

1. EXCLAMAÇÃO: é a figura em que se exprime sentimento de espanto, alegria, admiração, mediante uma palavra ou expressão. O orador ao usar tal recurso manifesta uma consideração mental ou uma mudança de humor o que, geralmente, move a vontade do ouvinte.

2. PARRESIA: é a figura de pensamento em que o orador, o palestrante, torna manifestamente claro e óbvio que o que ele diz é a sua convicção, o seu pensamento, a sua opinião e, mais ainda, a verdade. Nesta figura não se usa nenhuma forma retórica para encobrir o pensamento do orador, mesmo que o que diz seja perigoso para si mesmo, até envolvendo riscos. Parrhesiazesthai significa 'dizer a verdade' e parrhesiastes é aquele que diz a verdade, é aquele que não apenas emite uma opinião sua, mas proclama a verdade, traduz a realidade das coisas em seu discurso. Exemplos de Parresia temos na  Sétima Carta de Platão quando este afirma do tirano Dionísio II de Siracusa "não seja capaz de viver para a sabedoria e a virtude" ou a afirmação de Levi Fidelix de que "aparelho excretor não reproduz".

3. PROSOPOPEIA: é a figura de pensamento que atribui qualidades humanas a seres inanimados ou falas a seres ausentes e mortos. É a atribuição de vida ou qualidades humanas a seres inanimados, irracionais ou mortos. Exemplos temos nos Lusíadas (I, 14): "Por quem sempre o Tejo chora", na Bíblia: "A voz do sangue de teu irmão clama da terra por mim" (Gn. 4,10), "Todos os meus ossos dirão: Senhor, quem é como tu?" (Sl. 35,10).

4. APÓSTROFE: é a figura mediante a qual o orador interrompe o discurso para dirigir suas palavras a pessoas ou coisas reais ou fictícias. Exemplos temos nos Lusíadas (I,4): "E vós, Tágides minhas, pois criado tendes em mim um novo engenho ardente", em Vozes D'África, obra de Castro Alves: "Deus! ó Deus, onde estás que não me respondes?"

5. HIPOTIPOSE: é a figura de pensamento em que o orador pinta os fatos de que está tratando como se o que se estes estivessem realmente diante de seus olhos. Nesta figura concorrem a descrição e a narração guardando, cada uma, as suas características distintivas. La Fontaine diz que a hipotipose 'pinta as coisas de maneira tão viva e energética que as põe de algum modo sob os olhos'... Exemplo de hipotipose é encontrado em Vergílio Ferreira, Na Tua Face: "Lesta e loura, vejo-a subindo os patamares da entrada até o sítio da minha confusão. Traz um vestido claro e de meia manga, que à imaginação me parece transparente de tule, um elástico no braço a segurar. E quando chega ao pé de mim, tem uma cara fria branca assexuada. E uns olhos de minério azul".

6. APOSIOPESE: é a figura pela qual o orador suspende um pensamento já iniciado por meio de um corte repentino na cadeia sintática. É o silêncio súbito, a interrupção, as reticências do orador. A aposiopese é uma espécie de anacoluto consciente assinalando o momento em que o orador interrompe bruscamente a sequência das ideias: 1) ao perceber vai adiantar raciocínios ou surpresas, 2) quando pretende enfatizar as palavras, 3) quando se dá conta de que vai dizer mais do que deseja ou necessita. Exemplos temos na Bíblia, Gn. 3, 22: "Então, disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, pois, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente", em Garret, Frei Luís de Souza: "Deus tenha misericórdia de mim! E esse homem... Jesus! Esse homem era... esse homem tinha sido...", em Machado de Assis, Ressurreição: "Seria inútil querer dissuadi-la, e ainda que não fosse inútil, seria desarrazoado, porque uma viúva moça... Ela amava muito o marido, não?".

7. ETOPEIA: é a figura mediante a qual o orador descreve os costumes, as paixões e as inclinações de uma pessoa. Exemplo desta figura: "Margarida é uma mulher afável e predisposta ao diálogo. Pese a que teve uma infância e juventude complicada, nunca deixou que o sofrimento se refletisse em seus atos e palavras. Por isso sempre se dirige a todos com um sorriso, disposta a dar a ajuda de que necessitam".

Paulo Barbosa

terça-feira, 24 de outubro de 2017

DISCURSO: FIGURAS DE PENSAMENTO


O DISCURSO - do latim discursum = ação de correr por várias partes ou para variados lados - é a elocução, a fala, que tem por finalidade deleitar, convencer e persuadir, tendo por estrutura o exórdio - a primeira parte, a abertura -, a argumentação - a apresentação de razões que fundamentem a conclusão a que se quer chegar - e a peroração - a parte final com a conclusão, também chamada epílogo.

Para que um discurso consiga atingir suas três metas ou objetivos, deleitar, convencer e persuadir, que são objetivos dirigidos à sensibilidade, à inteligência e à vontade, há certos recursos que consiste ora em em alterar os sentido das palavras ora em alterar o uso real da linguagem no processo do pensamento. São as chamadas respectivas Figuras de Palavras e Figuras de Pensamento.

As Figuras de Palavras resumidamente são os seguintes recursos estilísticos:

1. Figuras de aumento de palavras: é a REPETIÇÃO: reduplicação, diácope, anáfora, anáfora alternada, epístrofe, simploce, poliptoton, anadiplosis, exergasia, polissíndeton e gradação.

2. Figuras de redução ou diminuição de palavras: elipse, sinédoque, assíndeto, zeugma.

3. Figuras de ASSONÂNCIA: consiste no uso de palavras que têm quase o mesmo som porém correspondendo a ideias diferentes.

As Figuras de Pensamento, por sua vez, que dependem do racional, da expressão, visando romper a monotonia surpreendendo o espírito, despertando-o, provocando sua atenção e tornando mais claras e mais eficientes as ideias, são divididas de acordo com as faculdades humanas - inteligência, vontade e sensibilidade - em Figuras para provar, Figuras para mover, Figuras para recrear.

Trataremos neste Tópico das primeiras, as Figuras para provar, em número de oito.

1. INTERROGAÇÃO: é a interrogação retórica ou pergunta retórica que não possui a finalidade de se obter uma resposta, mas de incrementar a reflexão, a argumentação do orador sobre o assunto em pauta. O maior mestre desta figura entre nós foi Padre Antônio Vieira em seus Sermões.

2. RESPOSTA: é a série de argumentos que esclarecem ou explicam uma questão.

3. PRETERIÇÃO: é, no discurso, tratar um determinado assunto ao mesmo tempo que se afirma que ele será evitado, fingindo não querer falar dele. Cícero, em um de seus discursos, a usou ao afirmar: "Não vos direi pois, senhores, quão grandes e quão afortunados foram seus feitos na paz e na guerra, por terra e por mar; não só os cidadãos consentiram sempre nos seus quereres, os aliados lhe obedeceram, os inimigos se lhe sujeitaram, como os próprios ventos e tempestades lhe foram favoráveis". E Camões em os Lusíadas (I,26) nas palavras de Júpiter sobre os Portugueses: "Deixo, deuses, atrás a fama antiga, / que co a gente de Rômulo alcançaram, / quando com Viriato, na inimiga / Guerra Romana, tanto se afamaram."

4. PROLEPSE: é a) o recurso de antecipar as respostas às objeções de um adversário, é responder antes que o adversário pergunte. b) É também a alteração da ordem sequencial dos acontecimentos, quando se antecipa alguns fatos que ainda não tenham ocorrido ou se faz um sumário de uma situação que irá ainda acontecer. Esta figura b aparece nos Lusíadas ao planejar a História de Portugal.

5. PERPLEXIDADE: é a figura que aporta espanto, estupefação, no ouvinte, levando-o, a partir daí, a buscar o conhecimento sobre o assunto em questão. É o espanto - o thauma - a origem do conhecimento, como ensinara Platão no Teeteto (155 d).

6. COMUNICAÇÃO: é o recurso pelo qual o orador toma o auditório como seu árbitro, convencido que está ou finge que o está de sua boa causa e, portanto, disposto a conformar-se com a decisão dele. É o orador tomar o seu público como testemunha ou árbitro da causa em questão.

7. SUSPENSÃO: é quando o orador cria um clima de suspense, de expectativa, no auditório, o que torna receptivo.

8. PERMISSÃO: é a figura em que se deixa para o auditório decidir sobre o tema. 

Paulo Barbosa

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

-GINTI / -GINTA dos numerais latinos

O -GINTI / -GINTA dos numerais latinos viginti, triginta, qudraginta, quinquaginta, sexaginta, septuaginta, etc. é proveniente de uma forma dual do indo-europeu de um tema antigo que significava 'dezena'. -GINTA é a forma neutra plural que ocorre nas demais dezenas.

Viginti, portanto, significa VI = DUAS mais GINTI = DEZENA, duas dezenas. Donde proveio o nosso VINTE.

Paulo Barbosa

terça-feira, 19 de setembro de 2017

DATIVO COM ADJETIVOS

Os adjetivos latinos que significam hostilidade, vantagem, semelhança, utilidade, vizinhança, igualdade, agrado, bondade, etc. e seus contrários pedem como complemento um nome no dativo:

utilis, inutilis, opportunus, salutaris, fructuosus, felix, gratus, ingratus, amicus, inimicus, intimus, secundus, familiaris, similis, dissimilis, ignotus, vicinus, finitimi, propinqus, proximus, obvius, par, impar, dispar, aptus, idoneus, alienus, etc.

proximique sunt Germanis - são os mais próximos dos germanos (César, B.G. I,1)

dat negotium Senonibus reliquisque Gallis qui finitimi Belgis erant - dá o encargo aos Senões e aos restantes gauleses, que eram vizinhos dos Belgas.

Paulo Barbosa

SOBRE SUBORDINADAS ADJETIVAS LATINAS

Oração subordinada adjetiva, como o nome indica, é aquela que expressa alguma qualidade do substantivo a que se refere.

Em latim esta subordinada é introduzida por um pronome ou advérbio relativo levando o verbo para o indicativo ou subjuntivo:

Hos ego video et de republica sententiam rogo, et quos ferro trucidari oportebat, eos nondum voce vulnero. - Eu vos vejo e peço parecer acerca da república e ainda não fulmino com a palavra aqueles que convinha fossem trucidados com o ferro. (Cícero, Cat. I,4).

Nam est innocentia affectio talis animi quae noceat nemini. - Com efeito, a inocência é uma tal qualidade do espírito que não ofende a ninguém. (Cícero, Tusc. III,16).

Erant omnino itinera duo quibus itineribus domo exire possent. - Havia dois caminhos pelos quais podiam sair da pátria. (César, B.G. I,6).

Paulo Barbosa

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

OBJETOS DIRETO E INDIRETO EM LATIM: EXISTEM?

O complemento verbal, termo integrante da oração, é o sintagma nominal que indica o ser ou a coisa que recebe a ação exercida pelo sujeito e expressa pelo verbo. É também denominado objeto. Na língua portuguesa há dois tipos de objetos, o direto e o indireto, sendo o primeiro o complemento verbal que não recebe preposição e o segundo o preposicionado. Em latim, entretanto, não pode existir tal distinção, haja vista a língua de Cícero não possuir o complemento preposicionado. Quando em latim há alguma preposição junto a um nome qualquer, esse sintagma preposicionado sempre possuirá a função de adjunto adverbial e nunca de 'objeto indireto'. 

Concluindo, os autores que denominam o caso dativo de objeto indireto incorrem em erro, pois jamais esse caso fora preposicionado no latim clássico, o que, por isso mesmo, não pode ser 'indireto'. A designação mais apropriada para o caso dativo deve ser a de complemento verbal terminativo.

Paulo Barbosa