quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O LATIM, LÍNGUA INDO-EUROPÉIA

O LATIM é uma língua itálica pertencente a família línguística do Indo-europeu, falada na Roma Antiga e depois nas Idades Média e Moderna, chegando mesmo à Contemporânea como língua científica até o século XIX. Sua história começa no século VIII a.C. chegando até a Idade Média como língua literária usada pelos eruditos. Costuma ser dividido nos seguintes períodos:

LATIM ARCAICO, desde sua formação no século VIII a.C. até a helenização de Roma, no século II a.C. Os autores mais salientes deste período foram: Ápio Cláudio, Lívio Andrônico, Ênio, Plauto e Terêncio.

LATIM CLÁSSICO, é o latim literário, padronizado, estilizado, criado pela elite cultural romana a partir do latim coloquial, o latim do dia a dia. Este período vai do século I a.C. ao século I d.C., período este chamado de Idade de Ouro das letras latinas cujos autores mais destacados foram: Cícero, Júlio César, Tito Lívio, Virgílio, Horácio, Catulo e Ovídio.

LATIM PÓS-CLÁSSICO, é a língua falada que vai se afastando progressivamente da língua padronizada, do latim clássico, conservado na escola e na literatura. É deste distanciamento crescente que nascerão, mais tarde, as línguas românicas - o português, o espanhol, o italiano, o francês, o romeno. Este latim é confundido com o latim imperial e decadente indo do século II ao III d.C., e os principais autores deste período foram: Fedro, Sêneca, Plínio o Velho, Petrônio, Pérsio, Quintiliano, Lucano, Marcial, Estácio, Tácito, Plínio o Jovem, Suetônio, Juvenal, Aulo Gélio e Apuleio.

LATIM TARDIO, é o usado pelos Padres da Igreja - teólogos e mestres cristãos que formularam a Doutrina Cristã do século II ao século VII. Estes começaram a escrever num latim mais polido, literário, abandonando, assim, o latim vulgar usado pelos primeiros cristãos. Os mais expressivos foram: Tertuliano, São Jerônimo e Santo Agostinho.

LATIM MEDIEVAL, é o usado no período da Idade Média, do século V ao século XV d.C. Este latim abrange o latim cartorial, parte do latim científico, ao latim eclesiástico e ao escolástico.

LATIM RENASCENTISTA, é a língua usada no Renascimento, de fins do século XV a meados do XVI. Os humanistas deste período voltaram-se para a Antiguidade Clássica e, por isso, a língua latina volta à tona na sua padronização clássica, estilizada. Os autores mais destacados foram: Petrarca, Erasmo de Roterdã, Luis Vives, Antônio de Nebrija e muitos outros, incluindo mesmo Martinho Lutero, promotor da Reforma Protestante.

LATIM CIENTÍFICO, é a língua que sobreviveu em escritores cientistas até o século XVIII, tais como René Descartes, Isaac Newton, Baruch Spinoza, Leibniz e Kant, que escreveram algumas de suas obras na língua do Lácio.

Paulo Barbosa

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

CASOS LATINOS II: DECLINAÇÃO E CASO

Em latim há três tipos de palavras:

as que são declinadas, ou seja, as que sofrem variações desinenciais, tais como os substantivos, adjetivos e pronomes;

as que são conjugadas, isto é, as que sofrem modificações para indicar a pessoa, o número, o tempo, o modo e a voz, tais como os verbos;

as que são indeclinadas, ou seja, as que não sofrem variações desinenciais alguma, tais como os advérbios, as preposições e as interjeições.

Vê-se, portanto, que as classes de palavras latinas são tripartidas: umas são declináveis, outras conjugáveis e uma terceira indeclináveis.

As alterações das palavras declináveis e conjugáveis são denominadas de FLEXÕES. FLEXÃO, portanto, é a alteração desinencial dos dois primeiros grupos de palavras acima, ou seja, dos nomes (substantivos, adjetivo e pronomes) e dos verbos.

Quando se diz que os nomes são declinados se quer dizer, então, que são desviados do rumo, que são afastados de um ponto ou de uma direção. Aliás, este é o significado de declinar = desviar-se ou afastar-se de um ponto ou direção. E qual seria a ponto ou a situação de onde o nome é desviado, deslocado, afastado? O ponto de onde os nomes se desviam é o CASO NOMINATIVO, o caso reto, o caso em que a palavra não está dependente de outra na oração, figurando como sujeito, muitas vezes.

Declinar um nome latino é, pois, desviá-lo ou afastá-lo do caso nominativo, o caso reto, para os demais casos oblíquos, o genitivo, o dativo, o acusativo e o ablativo.

Vê-se, também, que declinação tem relação com CASO

CASUM, em latim, é o particípio do verbo 'cadere' = 'cair', e significa 'caído', 'que cai', 'desviado'. Refere-se, portanto, a alguma coisa que se desviou dos padrões ou paradigmas normais, costumeiros, comuns.

Em língua latina, como já visto em outro post (http://topicosdelatinidade.blogspot.com.br/2014/02/casos-latinos-i.html#links), caso é a forma que um nome assume de acordo com a função que exerce na oração em que figura. A forma fundamental ou original do nome é o nominativo, chamado caso reto (= caso independente), enquanto os desvios (casum = a queda, o desvio) são os denominados casos oblíquos (= casos dependentes), quais sejam o genitivo, dativo, acusativo e ablativo.

O nome latino tem, portanto, uma forma fundamental, original, correta, íntegra, reta, que é o nominativo, que, por isso mesmo, não é um caso, não é um desvio, um deslocamento, mas é chamado de caso somente por analogia com os demais, e outras formas desviadas, afastadas da forma normal, que são os verdadeiros casos (casum = desvio) e oblíquos, dependentes de outros termos oracionais.

Há seis casos em latim, o que quer dizer, seis formas, seis aspectos exteriores que um nome assume para indicar a função que exerce na oração: o Nominativo, o Vocativo, o Genitivo, o Dativo, o Acusativo, o Ablativo. Cada caso possui dois números, o singular e o plural.

SINGULAR 

ros -a  -   Nominativo = caso do nome, do sujeito. Tradução: a rosa, rosa
ros -a  -   Vocativo = caso do apelo, do chamado. Tradução: ó rosa
ros -ae -   Genitivo = caso do adjunto adnominal. Tradução: da rosa
ros -ae  -  Dativo = caso do complemento verbal indireto. Tradução: à rosa, para a rosa
ros -am  - Acusativo = caso do complemento verbal direto. Tradução: a rosa
ros -a     - Ablativo = caso dos vários adjuntos adverbiais. Tradução: com a rosa, pela rosa

PLURAL:

ros -ae - Nominativo. Tradução: as rosas, rosas
ros -ae - Vocativo. Tradução: ó rosas
ros -arum - Genitivo. Tradução: das rosas 
ros -is - Dativo. Tradução: às rosas, para as rosas
ros -as - Acusativo. Tradução: as rosas
ros -is - Ablativo. Tradução: com as rosas, pelas rosas

O substantivo rosa aqui declinado, ou seja, desviado do caso reto ou do nominativo, faz parte de um grupo de nomes que tem o tema em -a, isto é, pertence a um grupo de nomes que finaliza a parte invariável na vogal -a. Outros nomes de tema em -a, e portanto, declinados como rosa, são: 

casa = choupana

vita = vida

Maria = Maria

terra = terra

caupona = taberna

O -a do caso nominativo não é, portanto, desinência casual, mas é o próprio tema, é a mesma vogal temática (elemento que permite a ligação entre o radical e as desinências).

E o grupo de nomes latinos que finaliza o radical com a vogal -a pertence ao que se denomina de PRIMEIRA DECLINAÇÃO

Há outros mais quatro grupos de nomes que terminam o radical com outras vogais temáticas e até consoantes temáticas, perfazendo, então, CINCO DECLINAÇÕES latinas.

DECLINAÇÃO, em latim, tem dupla acepção, portanto:

1. significa o desvio que um nome assume em relação à forma original, que é o nominativo, ou seja, é o conjunto das flexões de um nome conforme os casos, conforme as funções que exerce na oração. 

2. significa o grupo de palavras segundo o tema, isto é, segundo a vogal ou consoante que finaliza o radical. Há cinco declinações em latim, ou melhor, há cinco grupos de nomes arrumados, dispostos segundo o tema. Vimos que a primeira declinação ou o primeiro grupo nominal é aquele de tema em -a, como rosa.

Paulo Barbosa

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

CASOS LATINOS I

Ao se começar a estudar latim muito se ouve o nome CASO e sua respectiva definição, "as diversas formas que uma palavra assume de acordo com a função que exerce na oração". Seis são os casos latinos, a saber:

Nominativo é a forma que a palavra assume para dar nome às coisas ou para indicar o sujeito numa oração. A palavra 'sombra' exercendo a função subjetiva (de sujeito) assim fica:

UMBRA est amoena = A SOMBRA é agradável.

Vocativo é a forma que a palavra toma para interpelar ou chamar um objeto ou pessoa a que se dirige. Geralmente a forma vocativa é igual à forma nominativa. Daí, a mesma palavra 'sombra', mas já com outra função numa oração, a de vocativo, assim fica:

UMBRA, ubi es? = SOMBRA, onde estás?

Veja que mesmo havendo identidade de formas em UMBRA, a mesma para o nominativo e vocativo, há a diferença de que a forma vocativa sempre vem entre vírgulas, seja no início, no meio ou no fim da oração, o que a distingue do caso (ou forma) nominativo.

Genitivo é o caso ou a forma que a palavra assume para designar o coisa ou a pessoa a quem um objeto pertence. A mesma palavra UMBRA, nesta acepção, assim fica:

Nigror UMBRAE = o negror DA SOMBRA

Note que, em português, DA SOMBRA é uma locução ou construção possessiva neste caso, ou seja, uma expressão que indica posse, pertença. 

Dativo é a forma que a palavra toma para indicar o objeto ou a pessoa a quem uma ação aproveita ou desaproveita, é útil ou inútil. Assim, UMBRA toma a seguinte forma:

Lucem reddamus UMBRAE = demos luz À SOMBRA

Note que tanto o genitivo quanto o dativo aqui possuem formas iguais. O que diferencia é que o genitivo é, na maioria das vezes, um adjunto nominal (vem sempre junto a um nome, um substantivo), enquanto o dativo é complemento verbal, equivalente, muitas vezes, ao nosso objeto indireto. 

Acusativo é o caso ou forma tomada pela palavra com a finalidade de expressar o objeto de uma ação, o fim a que se mira uma ação. UMBRA exercendo essa finalidade assim fica:

Lux fugat UMBRAM = a luz afugenta A SOMBRA

Aqui, o acusativo é objeto direto do verbo.

Ablativo é a forma que a palavra assume para indicar ou designar a pessoa ou objeto pelo meio da qual a ação verbal é praticada. É o caso de vários adjuntos adverbiais (de modo, tempo, matéria, causa, instrumento) e do complemento de causa eficiente. 

UMBRA veniunt frigora = DA SOMBRA vem o frescor

Aqui, UMBRA é adjunto adverbial de causa, isto é, está associada ao verbo (daí, adverbial) e significa a causa do frescor. É como se disséssemos: A causa do frescor é a sombra.

Os casos nominativo e vocativo são chamados de CASOS RETOS, o que quer dizer que são independentes na oração, que não estão na dependência de outro termo. É daqui que vem os nossos pronomes pessoais do caso reto (eu, tu, ele, nós, vós, eles), que exercem a função de sujeito. Estes pronomes são chamados do caso reto, ou seja, são pronomes do caso nominativo, do caso que figura como sujeito numa oração.

Os demais casos - genitivo, dativo, acusativo e ablativo - são chamados de CASOS OBLÍQUOS por serem sempre dependentes de outros termos na oração. O genitivo depende do nome ao qual é adjunto; o dativo e acusativo dependem ou complementam, na maioria das vezes, verbos transitivos; e o ablativo depende do verbo ao qual é adjunto.

O SÉTIMO CASO

Vestígios há em latim da existência de um sétimo caso, o CASO LOCATIVO, de origem indo-européia, que exprime o lugar onde alguma pessoa se encontra ou onde algum evento se realizou ou realiza. Este caso, entretanto, é encontrado nos autores clássicos - Cícero, César - junto a nomes próprios geográficos e a apelativos (nome que convém a todos os seres de uma mesma espécie ou classe).

LOCATIVOS GEOGRÁFICOS:

1. Romae = em Roma  - Romulus Romae regnavit (Rômulo reinou em Roma)

2. Mediolani = em Milão - Paulus Mediolani est (Paulo está em Milão)

3. Carthagini = em Cartago - Domicilium Carthagini habeo (tenho domicílio em Cartago)


LOCATIVOS APELATIVOS:

1. Humi = no chão 

2. Belli = na guerra

3. Domi = em casa

4. Ruri = no campo

As desinências deste caso são de tipo adverbial e nunca chegaram a constituir um sistema ou corpo casual.

Paulo Barbosa



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

DUPLA NEGATIVA EM LATIM

Numa mesma oração em latim não se pode empregar duas negativas, portanto, ocorrendo uma negativa, tais como nullus, nemo, nihil, nusquam, etc., nunca poderá aparecer o ne, por exemplo. Assim, numa oração, como a seguinte:

NÃO tenhais NENHUM medo,

em latim deverá ser vertida desta forma:

NIHIL timueritis

Paulo Barbosa

ACUSATIVO DE IDADE

A idade é, em latim, exprimida pelo particípio NATUS (A, UM) com acusativo acompanhando o numeral cardinal. Assim:

Amicus obiit decem annos natus = o amigo morreu na idade de dez anos, com dez anos

Cato  annos quinque et octoginta natus e vita excessit = Catão morreu com oitenta e cinco anos

Major octoginta annos natus = com mais de oitenta anos

Minor viginti annos natus = com menos de vinte anos

Paulo Barbosa


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

INTERJEIÇÕES LATINAS

Interjeição é aquela palavra ou voz que exprime de maneira concisa e enérgica vários sentimentos súbitos da alma humana, como a alegria, a dor, a admiração e outros.

As principais interjeições latinas são:

1. de alegria:

      io, euae, euoe, euhoe = oh!

2. de dor:

      heu, eheu, ah, pro, au, proh = ai de mim

3. de admiração:

      a, ecce, en, eheu, heu, vah, papae, hui = ah! oh!

4. de exortação:

      eia (eia, sus), auge, cedo, age (=coragem), macte (=vamos)

5. de invocação:

      hercule, hercle, mehercules, mehercule = por Hércules; edepol = por Pólux; medius fidius = pelo deus da boa fé

6. de chamamento:

      utinam = oxalá, queira Deus!

7. de aprovação:

      fidius = perfeitamente; medius = exatamente

8. de desejo:

      o, eho, heus = oh! olá!

Paulo Barbosa

GENITIVOS OBJETIVOS E SUBJETIVOS

Genitivo objetivo é o mesmo que passivo. É denominado objetivo por ser o alvo, a meta ou o fim para onde se dirige a ação expressa pelo nome. E passivo, pelo mesmo motivo de sofrer ou receber a ação manifestada pelo nome. 

Exemplo deste tipo é:

Amor DEI = amor de Deus

Dei está no caso genitivo e aqui é objetivo (o alvo do amor) ou passivo (recebedor do amor). Ou seja, neste caso é o amor que os homens têm para com Deus, sendo, portanto, Deus - que está no genitivo Dei - o alvo do amor dos homens. 

Genitivo subjetivo, também denominado ativo, é aquele que age, que atua, que exerce a ação expressa pelo nome.

Assim, a mesma expressão:

Amor DEI = amor de Deus

pode o genitivo Dei ser subjetivo (exercer a ação como sujeito) ou ativo, significando o amor que Deus tem pelos homens. Aqui, Deus é o sujeito ou o agente do amor.

Esta questão genitiva latina reflete na língua portuguesa e quem a sabe bem, consegue resolver problemas que a primeira vista podem parecer dificultosos. Por exemplo, certa vez em discussão com um professor paulista, Orlando Fedeli, ele, por desconhecer esta questão, afirmou que "Cristo ama a todos os homens e nem por isso todos os homens estão unidos na mesma fé. Logo, a expressão na Missa: "O amor de Cristo nos uniu", não é correta". Esta afirmativa está errada, pois nesta frase o genitivo Christi, de Cristo, é objetivo, é passivo, significando o amor que os homens têm por Cristo, e este amor, sim, une os homens.

Paulo Barbosa