quinta-feira, 25 de agosto de 2016

ORAÇÕES COMPLETIVAS NOMINAIS E APOSITIVAS

AS ORAÇÕES SUBORDINADAS SUBSTANTIVAS LATINAS 1) completivas nominais e 2) apositivas são aquelas que:

1. completam o sentido de um nome que pertence à oração principal. - Em português esta espécie oracional vem introduzida por um conectivo preposicional o que, muitas vezes, a faz ser confundida com a oração objetiva indireta, que também necessita de preposição.

2. exerce a função de aposto, ou seja, de um termo que se junta a um substantivo da oração principal para explicá-lo ou esclarecê-lo.

Vejamos alguns exemplos de ambas:

COMPLETIVAS NOMINAIS:

a) Perterriti TIMORE ne supplicio adficerentur = aterrados PELO TEMOR de que fossem condenados ao suplício.

A subordinada ne supplicio adficerentur completa o sentido do substantivo timore, portanto, é uma substantiva completiva nominal.


b) Neque abest SUSPICIO quin ipse sibi mortem consciverit = nem está afasta a SUSPEITA de que ele próprio tenha se suicidado.

A subordinada quin ipse sibi mortem consciverit completa o sentido do substantivo suspicio, ou seja, é uma subordinada substantiva completiva nominal.


c) Scio quae tibi causa fuerit IMPEDIMENTO quo minus praecurrere adventum meum posses = sei que motivo te fora IMPEDIMENTO de poderes antecipar minha chegada.

A subordinada quo minus praecurrere adventum meum posses completa o sentido do substantivo impedimento, o que a faz ser classificada como oração subordinada substantiva completiva nominal.


APOSITIVAS:

a) Te oratum advenio ID, ut ignoscas mihi = venho para te pedir isto: que me perdoes.

A subordinada ut ignoscas mihi explica o sentido do pronome id da principal, ou seja, funciona como aposto da oração principal.


b) Nescit ID, qui sit, utrum sit an non sit = ignora isto: quem é, se vive ou se não vive.

A subordinada qui sit, utrum sit an non sit, que é uma interrogativa indireta dupla, explica o sentido do pronome id, sendo, portanto, uma subordinada apositiva.


c) Sed eos moneo HOC, desinant furere = mas àqueles advirto isto: que deixem de se enfurecer.

A subordinada desinant furere explica o pronome hoc, o que a faz ser uma oração subordinada substantiva apositiva.


Em português a oração subordinada substantiva apositiva vem, geralmente, separada da principal, na maioria das vezes, por dois pontos ou também pela vírgula. Em latim, entretanto, a vírgula é a de praxe.

Paulo Barbosa

sábado, 20 de agosto de 2016

ORAÇÃO INTEGRANTE NOMINATIVA

ORAÇÃO INTEGRANTE NOMINATIVA é aquela em que se coloca o sujeito da subordinada no caso nominativo bem como o seu aposto e o nome predicativo. Esse tipo de oração subordinada se dá quando o verbo subordinante é um dos seguintes:

a) DICOR = diz-se que eu

b) TRADOR = conta-se que eu

c) FEROR = divulga-se que eu

d) PUTOR = julga-se que eu

e) JUDICOR = julga-se que eu

f) EXISTIMOR = pensa-se que eu

g) JUBEOR = manda-se que eu

h) VETOR = proíbe-se que eu

i) VIDEOR = parece que eu


DICOR ego bonus esse = diz-se que eu sou bom.

TRADITUR Romulus fortissimus fuisse = conta-se que Rômulo era muito valente.

VIDERIS tu intelligere = parece que tu entendes.

VETITI SUNT milites pontem facere = proibiu-se aos soldados que fizessem a ponte.


Paulo Barbosa

SUPINO: O QUE É, COMO SE USA E SUA IMPORTÂNCIA

O QUE É:

O SUPINO é um substantivo verbal ativo defectivo que semelhantemente ao gerúndio tem por objetivo completar a declinação do infinitivo. Pode-se dizer que é um infinitivo de finalidade.

É defectivo por possuir apenas três casos: 

1. Acusativo em -UM (que se traduz com 'a / para' mais infinitivo)

2. Dativo em -U (que se traduz com 'de' mais infinitivo)

3. Ablativo também em -U (que se traduz com 'de' mais infinitivo)


No latim arcaico - forma do latim usada desde suas origens no século VIII a.C. até mais ou menos o ano 75 a.C. -, entretanto, ainda que raramente, aparecia um supino dativo em -UI, rivalizando, destarte, com a forma em -U. Esta forma em -UI foi usada no período clássico pelos escritores arcaizantes, como Salústio, aparecendo ainda na época imperial em Plínio o Velho e Tito Lívio.


COMO SE USA:

A sintaxe do supino, ou seja, seu emprego na oração, se ajusta às seguintes normas:

a) O SUPINO ACUSATIVO em -UM é regido por verbos de movimento (aqueles que indicam destino, retorno, envio, mudança de lugar: ire, venire, redire, mittere, proficisci, dimittere, etc) assim como pelos verbos dare, collocare, etc, significando finalidade, escopo, meta.

Miserunt Joannem Fluminem Januarium CONSULTUM quidnam facerent

Enviaram João ao Rio de Janeiro PARA PERGUNTAR o que faziam


Ire DORMITUM

Ir PARA DORMIR


Mittunt legatos ROGATUM auxilium

Mandam embaixadores PARA PEDIR ajuda


Misi amicum PETITUM argentum 

Enviei meu amigo PARA PEDIR dinheiro


Dare NUPTUM ou Collocare NUPTUM

Dar PARA CASAR (dar em matrimônio)


Dare VENUM 

Dar PARA VENDER (colocar à venda)


Venio LAUDATUM 

Venho PARA LOUVAR


Note que o supino acusativo, embora uma forma nominal, mas devido a seu caráter verbal - lembre-se de que é um substantivo verbal - conserva a regência do verbo a cuja conjugação pertence, podendo, pois, vir acompanhado de complemento direto também em acusativo, como em: 

Mittunt legatos ROGATUM AUXILIUM 

Misi amicum PETITUM ARGENTUM

onde AUXILIUM e ARGENTUM são complementos diretos dos supinos.


b) O SUPINO em -U (em que houve fusão dos empregos do dativo e do ablativo) acompanha determinados verbos e adjetivos - ou adjetivos verbais - que têm o sentido de possibilidade, de agrado, sendo os mais encontrados no período clássico os seguintes: auditu, intellectucognitu, dictu, factu, memoratu, visu. Conforme já visto, este supino se traduz com o auxílio da preposição 'de' mais infinitivo, ficando, portanto, os supracitados, assim: de ouvir, de entenderde conhecer, de dizer, de fazer, de lembrar, de ver.


O rem crudelem AUDITU

Ó coisa cruel DE SE OUVIR


Facile est INTELLECTU 

É fácil DE ENTENDER


Res digna MEMORATU 

Coisa digna DE SE LEMBRAR


Pode também este supino ser usado com os substantivos indeclináveis fas, nefas e com opus, indicando assim uma ação com referência à qual a qualidade expressa pelo adjetivo é afirmada:

Si hoc fas est DICTU

Se é permitido DIZER-SE isso


Opus est SCITU

É preciso SABER


IMPORTÂNCIA 

A importância do supino latino na sintaxe se mede pela própria etimologia do vocábulo 'supinus' adjetivo que significa 'deitado de costas, preguiçoso, indiferente'. Ou seja, o supino é uma forma verbo-nominal quase inútil já que todas as orações por ele construídas podem também ser de várias outras maneiras. Por exemplo, a seguinte oração

Amicus meus venit huc NATATUM - Meu amigo veio aqui PARA NADAR

pode ser construída em latim das seguintes maneiras abstraindo-se do supino natatum:


1. com causa ou gratia mais gerúndio ou gerundivo:

Amicus meus venit huc NATANDI CAUSA

ou 

Amicus meus venit huc NATANDI GRATIA



2. com ad mais acusativo do gerúndio ou do gerundivo:

Amicus meus venit huc AD NATANDUM



3. com o dativo do gerúndio ou do gerundivo, porém somente depois de certos substantivos:

Amicus meus duumvir creatus est SACRIFICANDO

Meu amigo foi nomeado duúmviro PARA OFERECER UM SACRIFÍCIO

em vez de: Amicus meus duumvir creatus est SACRIFICATUM.


Outro exemplo: a oração

Discedo LECTUM - Vou embora PARA LER

pode ser construída das seguintes formas:

Discedo LECTURUS

Discedo AD LEGENDUM

Discedo UT LEGAM


Portanto, a importância do supino é quase nula por, de diversas maneiras, uma oração de supino poder ser construída em latim. 

Para finalizar, o supino acusativo em -Um é denominado em algumas gramáticas de Supino I (supino primeiro) e o supino em -U, denominado Supino II (supino segundo).

Esta forma verbo-nominal não passou para as línguas neolatinas, expressando essas a finalidade mediante construções analíticas, como vimos nas traduções acima.

Paulo Barbosa

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

"TANTUM ERGO": TRADUÇÃO, ORDEM DIRETA E ANÁLISE SINTÁTICA

O TANTUM ERGO é um hino católico litúrgico cantado nas bençãos com o Santíssimo Sacramento tirado de uma peça mais extensa, o Pange Lingua, composto por Santo Tomás de Aquino (1225-1274) a pedido do papa Urbano IV para a solenidade de Corpus Christi. Vejamos o hino em latim com a respectiva tradução, ordem direta e análise sintática:


Tantum ergo Sacramentum                 Tão grande Sacramento            
Veneremur cernui,                               Veneremos, pois, curvados,
Et antiquum documentum                   E o antigo ensinamento
Novo cedat ritui,                                 Ceda ao novo rito,
Præstet fides supplementum               Garanta a fé o suplemento
Sensuum defectui.                               Ao defeito dos sentidos.

Genitori Genitoque,                              Ao Genitor e ao Gerado
Laus et iubilatio,                                  Louvor e júbilo,
Salus, honor, virtus quoque                 Haja salvação, honra e bênção
Sit et benedictio.                                  E também virtude.
Procedenti ab utroque                          Ao Procedente de Ambos
Compar sit laudatio.                            Haja igual louvor.


Na ordem direta, assim fica o hino eucarístico:

Cernui ergo veneremur      Curvados, pois, veneremos
Tantum Sacramentum        Tão grande Sacramento

Sujeito: Cernui - Curvados

Predicado: Veneremur tantum Sacramentum - Veneremos tão grande Sacramento

Complemento Verbal de veneremur: Tantum Sacramentum - Tão grande Sacramento (acusativo)

Adjunto adnominal de Sacramentum: Tantum - Tão grande

Nexo preposicional: Ergo - Pois


Et antiquum documentum       E o antigo ensinamento
Cedat novo ritui                        Ceda ao novo rito

Sujeito: Antiquum documentum - O antigo ensinamento

Adjunto adnominal de documentum: Antiquum - Antigo

Predicado: Cedat novo ritui - Ceda ao novo rito

Complemento verbal de cedat: Novo ritui - Ao novo rito (dativo)

Nexo conjuncional: Et - E (iniciando a segunda oração do período coordenado)


Fides praestet suplementum     A fé garanta o suplemento
Defectui sensuum                       Ao defeito dos sentidos

Sujeito: Fides - A fé

Predicado: Praestet suplementum defectui sensuum - Garanta o suplemento ao defeito dos sentidos

Complemento verbal de praestet: Suplementum defectui sensuum - O suplemento ao defeito dos sentidos

a. Complemento verbal acusativo: Suplementum - O suplemento

b. Complemento verbal dativo: Defectui sensuum - Ao defeito dos sentidos

Adjunto adnominal restritivo de defectui: Sensuum - Dos sentidos (genitivo plural)


Laus et iubilatio                           Louvor e júbilo
Salus, honor, virtus quoque        Salvação, honra, virtude
Et benedictio                                E também benção
Sit Genitori Genitoque                Seja ao Genitor e ao Gerado


Sujeito composto: Laus, jubilatio, salus, honor, benedictio - Louvor, júbilo, salvação, honra, virtude, benção

Predicado: Sit Genitori Genitoque - Seja ao Genitor e ao Gerado

Complemento verbal de sit: Genitori Genito - Ao Genitor, ao Gerado (dativo de interesse)

Nexos conjuncionais: Et, -Que - E  /  Quoque - também


Compar laudatio                      Igual louvor
Sit Procedenti ab Utroque       Seja ao Procedente de Ambos

Sujeito: Compar laudatio - Igual louvor

Adjunto adnominal de laudatio: Compar - Igual  

Predicado: Sit Procedenti ab Utroque

Complemento verbal de sit: Procedenti ab Utroque - Ao Procedente de Ambos

Complemento verbal em dativo de interesse: Procedenti - Ao Procedente

Complemento nominal de Procedente: Ab Utroque - De Ambos


Algumas notas:

1. A expressão 'antiquum documentum' refere-se ao Antigo Testamento;

2. A expressão 'novus ritus' (novo ritui) refere-se ao Novo Testamento;

3. Genitor (Genitori) refere-se a Deus Pai que gerou o Filho, Jesus Cristo;

4. Gerado (Genito) refere-se a Deus Filho, gerado por Deus Pai;

5. Ambos (ab Utroque) refere-se ao Pai e ao Filho;

6. Procedente (Procedenti) refere-se ao Espírito Santo;

7. O verbo sum quando significar 'ser para' é construído com dativo de interesse, como em 'Compar laudatio sit Procedenti ab Utroque - igual louvor seja para o que Procede de Ambos', ou seja, seja para o Espírito Santo.


Paulo Barbosa

ABLATIVO ABSOLUTO SEM PARTICÍPIO

ABLATIVO ABSOLUTO SEM PARTICÍPIO é uma maneira excepcional de se formar tal construção quando é constituída por substantivo porém sem o particípio presente do verbo sum (ser), forma nominal não existente em latim. Em português, entretanto, ao se traduzir este ablativo, costuma-se acrescentar o gerúndio 'sendo' ou se traduz de forma livre.

Esta espécie de ablativo absoluto se encontra:

1. Nos cargos públicos: quando aparece o nome de um cargo público em ablativo não preposicionado acompanhado de um nome de pessoa ou um pronome em ablativo.

a) Maria magistra = (Sendo) Maria professora.

b) Ebrio illo = (Sendo) bêbado aquele.

c) Cicerone et Antonio consulibus = (Sendo) cônsules Cícero e Antônio.


2. Em fase da vida: quando se expressa um momento da vida aparece um substantivo em ablativo não preposicionado acompanhado de um nome de pessoa ou um pronome também não preposicionado.

a) Te annoso = (Sendo) tu idoso.

b) Me puero = (Sendo) eu criança.


3. Com invitus, a, um: quando aparece um substantivo ou pronome em ablativo não preposicionado junto ao adjetivo invitus, a, um.

a) Invita sapientia = contra a sabedoria, o conhecimento.

b) Me invito = contra a minha vontade.

c) Te invito = contra a tua vontade.


Paulo Barbosa

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

ORAÇÃO DE INFINITIVO E SUAS ESPÉCIES

A ORAÇÃO DE INFINITIVO latina é aquela oração subordinada que consiste em uma oração principal com o verbo no indicativo, subjuntivo, imperativo em qualquer forma nominal e outra subordinada com o verbo no infinitivo. Tal modalidade oracional pode ser de duas espécies:

) Oração de Infinitivo Concertada: aquela que possui um único sujeito em nominativo para o verbo principal e para o verbo infinitivo:

a) Amare debes = (Tu) deves amar.

b) Potes tabernam venire = (Tu) podes vir ao bar.


) Oração de Infinitivo Não-Concertada: aquela que possui dois sujeitos distintos, um em nominativo para o verbo principal, outro em acusativo para o verbo infinitivo:

a) Video te laborare = (Eu) vejo que tu trabalhas, te vejo trabalhar.

b) Jubeo omnes abire = (Eu) ordeno que todos se vão, mando ir embora a todos.


Paulo Barbosa

terça-feira, 2 de agosto de 2016

OS LUSÍADAS EM LATIM


Os Lusíadas é a obra poética por excelência da literatura portuguesa, de autoria do ingente poeta Luíz Vaz de Camões. É uma epopeia composta por 10 cantos, 1102 estrofes, 8816 versos, concluída em 1556 e publicada em 1572, em pleno período do classicismo português. A ação central é a descoberta do caminho marítimo para as Índias por Vasco da Gama ao entorno da qual histórias de Portugal vão sendo tecidas para a glória do povo português.

Daremos abaixo as três primeiras estrofes do Canto I de Os Lusíadas traduzidas em latim pelo Padre Frei Clemente de Oliveira numa tradução literal, rigorosa, em versos decassílabos:


Arma virosque pariter insignes             As armas e os barões assinalados
Lusitanis qui occiduis ab oris                Que da ocidental praia Lusitana,
  
Profecti, ignotis, metuendis altis           Por mares nunca de antes navegados,
Navigatis, Trapobanem et ipsam           Passaram ainda além da Taprobana,

Praeteriere, periclisque et bellis             Em perigos e guerras esforçados
Super naturam fortes imbecillam           Mais do que prometia a força humana

Inter remotas gentes novum regnum       E entre gente remota edificaram
Finxerunt, quod sublime reddidere         Novo Reino, que tanto sublimaram

                                                         * * *

Gloria item praestantes omnes reges       E também as memórias gloriosas
Qui christianam Fidem dilatarunt            Daqueles Reis, que foram dilatando

Imperiumque simul Lusitanum,               A Fé, o Império, e as terras viciosas
Errantes, Asiam, Africam vastantes;        De África e de Ásia andaram devastando;

Qui, grandium memoria factorum,           E aqueles, que por obras valerosas
Sempiternum supererunt in aevum,          Se vão da lei da morte libertando


Canens, faventibus et Musa et arte.         Cantando espalharei por toda parte,
Per totum prorsus orbem divulgabo.        Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

                                                         * * *

Docti Graeci et Troiani praedicari                Cessem do sábio Grego e do Troiano 
Ingentes desinant per maria cursus;             As navegações grandes que fizeram;

Regum praetermittantur Alexandri               Cale-se de Alexandro e de Trajano
Ac Traiani victoriae patratae:                       A fama das vitórias que tiveram;

Ego acres, claros Lusitanos canto,                Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
Quibus Mars bellax Neptunusque parent.     A quem Neptuno e Marte obedeceram:

Antiquae animo excidant Camenae;             Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Celebranda altiora surgunt gesta.                  Que outro valor mais alto se alevanta.


Paulo Barbosa