segunda-feira, 20 de outubro de 2014

PREDICADO, O QUE É E ESPÉCIES

O predicado é tudo aquilo que se afirma acerca do sujeito sendo o elemento essencial de uma oração, podendo ser verbal ou nominal, o primeiro quando o seu núcleo é constituído por um verbo e o segundo, por um nome. 

Census nostros requiris = reclamas nossos sensos, é um predicado verbal, onde o núcleo é constituído pelo verbo 'requiris'. O sujeito, tu,  está implícito na conjugação.

Praeclara res est = o assunto é notável, onde praeclara est é um predicado nominal, o verbo exercendo aí apenas a função copulativa, de ligação, entre o predicativo e o sujeito.


A constituição do predicado pode ser simples ou precisa. Se tem um predicado simples quando nele se contém apenas o verbo, como em: 

Ego et Laetitia valemus = Letícia e eu estamos bem.

Quando o verbo reclama após si um substantivo para lhe completar o sentido, este se chama objeto ou complemento verbal. Se chama objeto por ser o objeto da ação, ou seja, o seu fim, onde a ação termina. Assim:

Audentes fortuna juvat = a sorte ajuda os audazes. 'Audentes, os audazes' é o objeto ou complemento do verbo 'juvat, ajuda'. Na língua portuguesa esse objeto se qualifica como direto, ou seja, ele se junta ao verbo sem intermédio de preposição. Está no caso acusativo plural.

Animo imperabit sapiens = o sábio governará a seu espírito. 'Animo, ao espírito' é objeto ou complemento verbal de 'imperabit, governará'. Na língua portuguesa este objeto é qualificado como indireto por requisitar preposição para ligá-lo ao verbo. Está no caso dativo singular.


A constituição precisa do predicado se dá quando é determinado com maior clareza ou precisão por advérbios ou adjuntos adverbiais acrescentando-lhe circunstâncias especiais à ação expressa pelo verbo. Vejamos:

Nunc quidem deleta est = agora realmente está destruída. O 'nunc' é um advérbio que esclarece o verbo, que lhe traz precisão, mostrando que a destruição é agora, no momento atual. 

Frumenta ex agris in oppida comportant = transportam o trigo dos campos para as cidades. Tanto 'ex agris' quanto 'in oppida' são adjuntos adverbiais que acrescem ao verbo circunstâncias, detalhamentos, particularidades. Mostram de onde vêm, 'ex agris', e para onde se encaminham, 'in oppida'.

Paulo Barbosa


SIGNIFICADO DA MÁXIMA 'ERRAR É HUMANO'

ERRARE HUMANUM EST é uma máxima latina sempre traduzida por 'errar é humano", onde o verbo significa 'enganar-se, equivocar-se". O que poucos sabem, porém, é que tanto em latim quanto em português ERRARE, ERRAR tem o bom sentido de 'andar, vaguear, passear de um lado para outro'. Todo progresso teve por fundamento os erros (= as andanças) das novas gerações, corrigindo os erros das gerações passadas.

O primeiro sentido de 'errar', portanto, é o de ir depressa, de ir direto a um dado destino, é o de viajar, de se deslocar de um ponto a outro. Neste sentido 'errar' sempre foi uma virtude humana, uma proeza, uma aventura, pelo menos até o século XII. Em francês, por exemplo, 'faire bonne erre' significava 'ir depressa' e 'de grant erre' queria dizer 'pronto para a corrida'. 

Foi nesta acepção primeira que os romanos forjaram a máxima, já que 'errar é humano' enquanto é próprio do homem caminhar, se dirigir depressa em busca de qualquer conhecimento, se aventurar em busca do progresso.

Paulo Barbosa

SERIA 'LUSITÂNIA' PROVENIENTE DE 'LUSO'?

LUSITÂNIA foi o nome que desde a Antiguidade recebeu Portugal.  Camões, nos Lusíadas (III,21) faz esta palavra derivar de Luso ou Lisa:

"Esta foi Lusitânia, derivada

De Luso ou Lisa, que de Baco antigo

Filhos foram, parece, ou companheiros"

O poeta, entretanto, se mostra indeciso se foram filhos ou companheiros de Baco. Epifânio Dias, a maior autoridade em Camões do século XX, ao comentar estes versos, diz-nos que sua fonte foi Plínio que na Naturalis Historia (III,8), num trecho obscuro, assim exarou:

"Lusum enim Liberi patris ac Lysam cum eo bacchantem nomen dedisse Lusitaniae"

"Diz-nos Luso, filho de Baco, e Lisa, bacante, ter dado juntamente com ele o nome à Lusitânia"

No Índice da obra de Plínio aparecem ambos, Luso e Lisa, como Comes Bacchi (companheiros de Baco), donde a prudência de Camões se 'foram filhos ou campanheiros'. Observa também Epifânio que a melhor derivação seria de Luso, pois de Lisa viria a ser Lisitânia.

Em VIII,2, porém, Camões é mais decisivo ao declarar que:

"Este que vês é Luso, donde a fama

O nosso reino Lusitânia chama.

Foi filho e companheiro do Tebano

Que tão diversas partes conquistou"

O Tebano é o mesmo Baco, pois, como narra a mitologia, nasceu em Tebas. E aqui vê-se que o poeta não usa mais a alternativa 'filho ou companheiro', mas 'filho e companheiro', nem fala mais em Lisa.

O que deve ter havido aqui, no intervalo entre um Canto e outro, segundo Epifânio Dias, é que Camões provavelmente tomara contato com a obra do humanista português André de Resende, o Vicentius, que transcrevera o citado texto de Plínio:

"Quorum verborum hic est sensus, Lusum Liberi patris filium non

autem socium, ut quidam contra loquendi usum interpretantur, una

cum Lysa, nimirum Liberi socio, nomen Lusitaniae nostrae dedisse"


"Luso, filho de Baco, e não companheiro como alguns interpretam erradamente,

juntamente com Lisa, realmente companheiro de Baco,

terem dado o nome à Lusitânia"

Esta opção camoniana de 'filho e companheiro' irá ser reiterada na estrofe 4 do mesmo Canto:


"O ramo que lhe vês pera divisa,

O verde tirso foi de Baco usado,

O qual à nossa idade amostra e avisa

Que foi seu companheiro e filho amado"


O tirso era uma vara ou bastão todo forrado de eras e de folhas de uvas, insígnia do deus Baco.

A questão que se coloca agora é a seguinte: como explicar que a terra lusitana perpetue o nome de Baco por meio de um seu filho, sendo Baco um deus que era perseguidor dos lusitanos? A divindade favorável aos lusitanos, como se sabe pela mitologia, era Vênus, a deusa do puro amor. Baco, porém, representava o amor obsceno, imoral, deturpado, o amor de luxúria, e por isso mesmo, devia ser considerado o inimigo natural de Vênus. Mesmo em Roma esse deus com seu culto não era bem visto e as bacanais, orgias em seu louvor, pelo caráter tipicamente imoral, foram proibidas por um decreto do Senado Romano.

Foi devido a isso que muitos estudiosos de Etimologia negaram a ligação entre Lusitânia e Luso, como, por exemplo, Leite de Vasconcelos, linguista e filólogo português do século XX, que em sua Religiões da Lusitânia assevera: "Entre as diversas hipóteses, a que parece mais aceitável é a que busca a etimologia de Lusitani em Lusones, nome de uma tribo celtibérica, como já lembrava Herculano, segundo Romey".
obra

Paulo Barbosa

sábado, 18 de outubro de 2014

LATIM MEDIEVAL E MODERNO


Durante toda a Idade Média (séculos V a XV) fora o latim a língua sábia usada por todos os eruditos. Meillet em sua obra magistral, Les Langues dans l'Europe Nouvelle, diz que quando da fundação das Universidades europeias o latim era em toda parte sua única língua. Todos os sábios, da Espanha à Polônia, da Escócia e Suécia à Sicília, possuíam essa única língua. Professores e alunos mudavam de uma Universidade à outra sem que experimentassem qualquer barreira linguística, pois havia a unidade de código e em toda parte liam-se e estudavam-se os mesmos escritos, discutiam-se o mesmo conjunto de teses fundamentais e orgânicas. E esse sistema durou até à época moderna.

Dante, o grande político e poeta italiano do século XIV, quando escrevia para o povão, para o grande público, usava a língua italiana, mas quando se dirigia ao corpus de letrados compunha em latim. A poesia e a épica, tanto a cortesã quanto a popular, eram vazadas também em língua vulgar, em italiano, e os primeiros textos em prosa a abstrair do latim foram narrativas de guerreiros, homens rudes e prosaicos, daquilo que fizeram e viram durante as peripécias bélicas, tais como os de Joinville e Villehardouin. Os eruditos, porém, continuavam a exarar e a ler na língua romana.

No século XVI todo o ensino universitário era transmitido através do latim, a língua dos cultos, dos clerici (clérigos) e dos litterati (letrados). Apesar disso, alguns homens à frente de seu tempo começaram a advogar a necessidade de se colocar na ordem do dia o vernáculo, a língua de cada nação ou povo.

No século XVII continua o latim a língua da ciência e da filosofia, o modo de expressão normal das ideias e conceitos. Descartes, entretanto, de maneira acessória, sim, produziu algumas de suas obras em francês.

Foi no século XVIII, todavia, que o latim deixou de ser a língua sapiencial, usada pelos sábios e filósofos, e isto se deve sobretudo à decadência das Universidades que se deu nesta época, onde o latim era a língua habitual na ministração das lições. 

A vitalidade desse latim pós medieval foi constatada também por Ernst Robert Curtius em sua obra de fôlego Literatura Europeia e Idade Média Latina, onde diz que durante muitos séculos permaneceu o latim como língua viva do ensino, da ciência, da administração, da justiça e da diplomacia. Acrescenta ainda o autor que só no século XVI, mais precisamente em 1539, foi o latim abolido na França como a língua dos tribunais por ordem de Francisco I. Entretanto, como língua literária, sobreviveu muito tempo ainda após o desaparecimento da Idade Média, tais como na pena de Dante, de Petrarca e Bocácio. Em seguida, o movimento chamado Humanismo, dentro do Renascimento, dá novo e poderoso impulso ao gosto pelo latim.

Enfim, essa duplicidade linguística, o latim e a língua vernácula, se deu devido, como já vimos acima, o povo não compreender mais a língua romana. Curtius diz que o homem comum sabia da existência das duas línguas, a vernácula popular e a dos letrados (clerici e litterati). Essa falta de entendimento do latim por parte do povo começou no século VIII, quando ainda se compreendia o que o padre rezava na missa. 

Paulo Barbosa


terça-feira, 2 de setembro de 2014

O PLURAL NÃO ESPECÍFICO

Em gramática, número é a categoria que permite determinar a quantidade de entes ou coisas existentes. Se  há um único ente se diz singular, se mais de um, plural.

No latim primitivo, entretanto, além do singular e do plural, havia o dual, uma flexão gramatical numérica que indicava o conjunto de duas coisas ou entes. Sempre que se estava diante de dois objetos o uso deste era de rigor. 

Nem sempre, porém, o plural representa a noção de um singular repetido tal como mesas, cadeiras, sapatos, etc. Há o que se denomina:

PLURAL NÃO ESPECÍFICO

que é o plural dos nomes próprios aplicado aos membros de uma mesma família, ou

aplicado a pessoas que reúnam em si qualidades comuns que as distingam de outras.


Da primeira espécie, podemos dar como exemplo a seguinte resposta da família dos Metelos ao poeta Névio:

"Dabut malum Metelli Naevio poetae" = "Os Metelos castigarão o poeta Névio".

'Metelli' é aqui plural de vários seres da família Metela.


Do segundo tipo de plural não específico pode ser o célebre verso do poeta Marcial:

"Sint Maecenates, non deerunt, Flacce, Marones" = "Haja os Mecenas e não faltarão, ó Flaco, os Vergílios".

'Maecenates', 'Marones', plurais aplicados a quem reúna em si as qualidades de Mecenas e de Vergílio.


Outras vezes se usa o plural para designar a complexidade de um objeto. Assim, 

'fores' = porta.

'tenebrae' = trevas

'exuviae' = despojos tomados do inimigo

Paulo Barbosa

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

AS DUAS ESPÉCIES DE LEIS ROMANAS

No Direito Romano Republicano, ou seja, aquele que vigorou a partir da instituição da República, de 509 a 27 a.C., as fontes do Direito eram quatro, a saber, as leis, os editos dos Magistrados, os senatus-consultos e o costume

As Leis eram de duas espécies ou se apresentavam em duas formas: Lex rogatae e Lex data.

Lex rogatae era aquela que era pedida ou votada na assembléia. Nascia, portanto, mediante cooperação do magistrado com o povo, provinda de uma proposta daquele e a consequente aceitação deste.

Para que uma lex rogatae fosse válida, três eram as condições:

1. A proclamação feita pelo magistrado.

2. A votação na assembléia, ou seja, a rogatio, onde não se permitia emendas.

3. A publicação do texto legal, ou o levar ao conhecimento do povo.


A Lex data, pelo contrário, não era criada em cooperação do magistrado com o povo, mas aquele baixava fundamentando-a somente na sua autoridade. O nome mesmo diz, data = dada, imposta. Este tipo de lei tinha por função organizar as províncias, reformar uma administração provincial, outorgar estatutos de Cidades na Itália ou no exterior, etc.

Paulo Barbosa

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

INTERROGAÇÃO DISJUNTIVA OU DUPLA LATINA

A interrogação disjuntiva latina é aquela que indaga qual dos membros da oração, que são excludentes mutuamente, deve ser afirmado ou negado. 

O primeiro membro pode vir sem nenhuma partícula interrogativa, mas pode também figurar a partícula interrogativa utrum anteposto ou o sufixo -ne posposto. Assim:

Panem fertis an crustum? = trazes pão ou pastel?

Utrum panem fertis an crustum? = porventura trazes pão ou pastel?


Panemne fertis an crustum?


Veja que o segundo membro é ligado pela conjunção alternativa an = ou

Obs: O an não pode ser confundido com aut. Ambos significam ou, mas an traz sempre sentido de contrariedade entre duas indagações, traz sempre sentido de oposição, enquanto aut separa apenas dois sujeitos ou dois objetos de uma mesma pergunta sem indicar oposição: 

Vultisne panem aut crustum? = quereis pão ou pastel?

Nesta pergunta não há oposição, ou seja, pode ser escolhido somente o pão ou somente o pastel, assim como podem ambos serem escolhidos.



Caso seja ligado pela alternativa negativa ou não, usa-se:

an non caso a interrogativa seja direta (ou seja, quando é terminada graficamente por ponto de interrogação ou por entonação crescente quando oralmente):

Visesne me cras an non? = Virás visitar-me amanhã ou não?

necne caso a interrogativa seja indireta (ou seja, quando não termina graficamente por ponto de interrogação ou quando a entonação é decrescente):

Ex te quaero visurusne me sis cras necne

Pergunto-te se me visitarás amanhã ou não


Paulo Barbosa